De Correctione Rusticorum (A Correção dos Rústicos) é uma carta e sermão escrito pelo bispo São Martinho de Braga, em latim, entre os anos de 572 e 574, para o bispo Polémio de Astorga, que se queixava dos costumes do povo. O nome deriva da escolha do primeiro editor do documento, que utilizou a versão mais antiga, presente no Breviário Bracarense de D. Rodrigo da Cunha, de 1634, sendo que ao longo do tempo, a obra teve outros nomes: Epistola ad Polemium (Carta para Polémio), De origine idolorum (A Origem dos Ídolos) ou Pro Castigatione Rusticorum (Para Castigo dos Rústicos).

Características Trata-se de um instrumento de trabalho pastoral da segunda metade do século VI, que visava a coerência e o crescimento na fé das comunidades cristãs. Também serviu de auxílio ao cumprimento das determinações do I Concílio de Braga e do II Concílio de Braga durante as visitas dos bispos às suas igrejas. Os concílios realizaram-se em Braga, nos anos de 561 e de 572, respetivamente. Nem o priscilianismo nem o arianismo, são referenciados ou sequer combatidos, na carta. Segundo Pio Alves, este sermão em forma de carta acaba por constituir uma espécie de «catecismo cristão». Resume os fundamentos dos ensinamentos das Sagradas Escrituras e espelha, ao mesmo tempo, a sociedade sueva do século VI. Martinho pretendia tanto catequizar como julgar comportamentos, estabelecer normas de vida e afastar os fiéis de caminhos não cristãos.

Os «rústicos» que surgem na carta são, segundo São Martinho, aqueles que ainda estão presos às velhas superstições dos pagãos e que prestam mais veneração aos demónios do que a Deus. Para José Meirinhos, os «rústicos» não pertencem necessariamente à população rural, mas designam antes aqueles que ainda não tinham adotado o cristianismo ou que já o tinham abandonado. Além disso, quando é referido no sermão que está escrito em linguagem dos «rústicos», Martinho não procurava utilizar um latim simples ou popular, mas antes uma linguagem e uma exposição compreensíveis. São Martinho demonstra conhecer Cesário de Arles e Santo Agostinho de Hipona. Deverá ter tido contacto, em alguns pontos, com o De catechizandis rudibus, muito embora se reconheça que a obra de São Martinho não possa ser considerada subsidiária da de Santo Agostinho, cuja influencia se fez sentir em obras semelhantes.

Conteúdo No primeiro parágrafo, São Martinho responde ao pedido de Polémio, revelando os conteúdos que precisava de abordar na sua pregação. De seguida, Martinho muda o discurso e volta-se para aos «rústicos». A pregação começa a partir do terceiro parágrafo, com o episódio da criação dos anjos e a queda da terça parte dos anjos do Céu e de Lúcifer, que viriam a ser chamados, respetivamente, anjos caídos ou demónios, e Satanás. Deus, querendo ocupar o lugar de onde os anjos tinham caído, criou o homem e mandou-lhe que cumprisse a sua lei (não comer o fruto da árvore do Jardim do Éden). Contudo, o diabo, pela inveja que tinha deste último, persuadiu-o a desobedecer, levando o homem a abandonar o Paraíso e a ser enviado para o mundo. Adão e Eva constituíram o primeiro casal humano que, depois de enviados para a Terra, difundiram a espécie humana, a qual continuava a ofender a Deus, com exceção de Noé e dos seus filhos, que foram salvos do Dilúvio. A partir do sexto paragrafo, Martinho começa a narrar a origem dos ídolos, afirmando que surgiram a partir do esquecimento de Deus por parte dos homens e da adoração às criaturas, tais como o sol, a lua, as estrelas, o fogo e a água dos mares e dos poços, acreditando que fossem deuses e que se tivessem criado a si mesmas. Foi a partir daqui que os demónios se aproveitaram e começaram a aparecer aos homens, exigindo cultos e sacrifícios. Martinho acrescenta que os demónios se disfarçaram de homens criminosos, que tinham passado a vida a cometer crimes e delitos. Júpiter é descrito como tendo sido um mago e um incestuoso, pois tinha casado com a sua irmã Juno, além de agressor sexual das suas filhas (Minerva e Vénus), das suas netas e de outras parentes. Marte teria sido um instigador de litígios e de discórdias. Mercúrio, a quem os homens, descritos como gananciosos, costumavam atirar pedras e fazer montes de pedras nas encruzilhadas como forma de sacrifício, teria sido um inventor astucioso da fraude e do roubo. Como último exemplo, surge Vénus, identificada como uma mulher que teve relações sexuais com muitos homens, incluindo o seu pai, Júpiter, e o seu irmão, Marte. São Martinho refere ainda que Neptuno é um demónio do mar, Lâmia nos rios, as Ninfas das fontes e Diana dos bosques, entre outros. Resume-se a história da Criação, segundo a qual o mundo e tudo o que nele existe foram criados em sete dias, para enfatizar que o dia de Deus é o domingo e não qualquer outro associado a uma divindade. Critica-se o uso dos nomes dos deuses romanos para os dias da semana. Segundo Pio Alves, há quem veja nesta parte o começo da designação portuguesa dos dias da semana, entre o domingo e o sábado, por números. Martinho recusa que o início do ano seja em janeiro e aceita o dia 25 de março, tendo por base o relato bíblico de que, quando Deus criou a Terra, separou a luz do dia e as trevas da noite de forma igual. O dia 25 de março pertence ao equinócio de primavera. Os «rústicos», no paragrafo 11, são acusados de adorarem lagartos e ratos em vez de Deus. Assim como viria a acontecer no reino Visigótico, Martinho afirma que é supersticioso procurar compreender o futuro, uma vez que esse direito pertence somente a Deus, e que os demónios enganam os homens com o objetivo de afastá-los do verdadeiro culto e de herdarem o Reino dos Céus. São referidos a encarnação, o nascimento, a vida, a missão, a paixão, a morte e a ressureição de Jesus, como plano de Deus para resgatar o ser humano, além da ordem dada por Jesus aos apóstolos, depois da ressureição, para anunciarem o Evangelho, batizarem as pessoas para a remissão dos pecados e ensiná-las a afastarem-se do mal. Depois, Jesus ascende aos Céus e é dito que, no futuro, voltará ao mundo. Martinho fala do fim do mundo, momento em que os bons e os maus receberão as suas suas recompensas, tendo em conta a escolha de cada pessoa: o Céu para os primeiros e o Inferno para os últimos. No paragrafo 15, relembram-se as promessas e aquilo em que se jurou crer durante o batismo, para demonstrar o contraste entre o que tinha sido dito e aquilo que era praticado. Martinho ainda vai mais longe e afirma que os costumes dos «rústicos» representam um desprezo por Deus, pelo batismo e pelo sinal da Cruz. A partir daqui, o bispo convida os fieis a se arrependerem-se e a fazerem penitência, algo esperado por Deus, que terá misericórdia. Fala-se ainda do batismo e do seu ritual, que incluía a renúncia a satanás, a profissão de fé (Credo) e a oração dominical. Tudo isto para que os rústicos percebessem que estavam a viver de forma contrária à doutrina cristã que tinham professado e que permaneciam ligados a outros costumes. A carta termina com a mensagem de que ninguém deve desesperar da misericórdia e do perdão de Deus. A partir do paragrafo 18, São Martinho começa a finalizar o sermão, exortando os fieis a observem e a acreditarem na vida eterna e a não se preocuparem excessivamente com os problemas do mundo. Pede que façam boas obras, destacando o dia de domingo como dia dedicado a Deus e ao descanso. Volta a criticar as práticas dos «rústicos», que não cumprem os preceitos cristãos. No fim, Martinho despede-se e exprime o desejo de que os «rústicos» ouçam o sermão e se lembrem de que um dia terão de prestar contas a Deus.

Influência em outras obras Sabemos que a obra de Martinho terá sido conhecida e utilizada por autores posteriores, como São Pirmino de Reichenau e Elfrico de Eynsham. Pirmino participou em missões de evangelização junto dos alamanos e, com o objetivo de dispor de uma espécie de catecismo, escreveu o Scarapsus. Quando se observa esta obra, percebe-se que foi influenciada pelo De catechizandis rudibus de Santo Agostinho e também pelo De Correctione Rusticorum de São Martinho, tendo Pirmino chegado a copiar algumas passagens quase palavra por palavra. Ainda assim, o Scarapsus apresenta alguma originalidade. Para Virginia Day, o De Correctione terá desempenhado um papel relevante na formação da literatura catequética cristã medieval inglesa. A autora identifica três sermões. O primeiro, o Vercelli XIX, descreve a Trindade e os seus poderes de criação, a criação dos Céus, da Terra e dos anjos, a queda dos anjos, bem como a criação, queda e redenção do homem. Elfrico de Eynsham escreveu o De Initio Creaturae, iniciando assim a sua série dos Sermones Catholici. Neste segundo sermão vemos que o texto foi redigido de outra forma. Começa-se com uma invocação a Deus; depois, o autor faz algumas observações sobre a natureza e os poderes de Deus; e termina narrando a criação do mundo até ao fim dos tempos. Já o terceiro sermão é da autoria de Vulstano, arcebispo de Iorque, que se baseou numa outra homilia de Elfrico. Apresenta um estilo distinto e, até certo ponto, também um conteúdo diferente, mas as linhas gerais do pensamento de Elfrico mantêm-se. A autora acredita que estes três sermões mantêm alguma relação com o De Correctione ou com o Scarapsus. Contudo, o De Initio e o De Falsis Diis, ambos de Elfrico, são os que apresentam mais semelhanças com o De Correctione.

Paralelo com o reino Visigótico Mesmo após a carta de São Martinho ao bispo Polémio, nos finais do século VII e inícios do século VIII, as antigas práticas continuavam a persistir. Na legislação criada pelo rei visigodo Ervígio podem encontrar-se alguns artigos significativos sobre estes cultos. Por exemplo, é referido que, se um cristão consultasse adivinhos, feiticeiros, bruxos, áugures, arúspices ou pessoas semelhantes, receberia cinco anos de penitência. Do mesmo modo se alguém fosse um «tempestário», receberia quinze anos de penitência. Um «tempestário» era conhecido por provocar a queda de granizo sobre as vinhas e as colheitas. Segundo alguns autores, mesmo após a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, o cristianismo apresentava dificuldades em implementar-se entre as populações da Hispânia, sinal de um processo lento de cristianização.

Referências

Ligações externas De Correctione Rusticorum (versão em latim, pdf). Versão bilingue latim-inglês feita por Hélio Pires